segunda-feira, 19 de Outubro de 2020

 
Reta
Passageiros & Mobilidade
03-04-2020
Sistemas de bilhética
A integração dos diversos meios de mobilidade
A importância dos sistemas de bilhética e da sua integração de forma articulada e integrada com os diversos serviços de mobilidade.



Os sistemas de bilhética são tradicionalmente um instrumento de controlo do acesso aos serviços de transporte público coletivo de passageiros, em função dos direitos de cada cliente, seja o serviço pré, pós-pago ou “não pago”, incluindo ou não a integração tarifária entre os diversos serviços de transporte. Na verdade, têm várias outras utilidades, como sejam, a aferição dessa mesma utilização, através das “validações” dos clientes quando iniciam ou terminam a viagem. São úteis, não apenas do ponto de vista da gestão e controlo da receita, mas também da aferição da procura, tradicionalmente para os operadores de transportes, e no ciclo atual das concessões de transportes, para as autoridades de transportes, sejam câmaras municipais, comunidades intermunicipais, autoridades metropolitanas. Importa também salientar que, ainda que o transporte público seja o paradigma nuclear da mobilidade nas cidades e regiões, não se deve ignorar a necessidade de uma visão integrada e articulada com a panóplia de outros serviços de mobilidade, individuais ou coletivos, pesados, ligeiros ou leves, de caráter regular ou “a pedido”, partilhados ou não (exemplo: autocarro, metro, comboio, elétricos, barcos; bicicletas, carros, trotinetas partilhadas; táxis, “ubers”, transferes, minibus; ou até o andar a pé ou o estacionamento periférico).

Assim, a integração dos diversos meios de mobilidade, quer através dos sistemas de bilhética, quer dos sistemas de informação ao cliente é, mais do que vantajoso, uma necessidade para as autoridades, que assumem responsabilidades sobre a qualidade da mobilidade de pessoas, nas suas áreas de cobertura geográfica, e em ligação com deslocações intermunicipais, regionais, ou até de longa distância. São mecanismos essenciais ao tão ambicionado conceito de Mobility-as-a-Service (MaaS). Para isso, exigem-se novos modelos de governação, que, por sua vez, requerem mecanismos de suporte à gestão, que devem basear-se em mecanismos de especificação aberta, arquitetura de sistemas (tecnológicos) e soluções tecnológicas abertas e modulares, e até modelos de ownership flexíveis e de colaboração equilibrados.

Os modelos devem permitir que estes mecanismos possam ser postos em prática de forma modular e estruturada, com a participação adequada das autoridades concedentes, dos operadores concessionários, dos operadores privados de serviços de mobilidade, sem esquecer a própria indústria, de uma forma transversal e integradora, de todos os serviços de mobilidade. Neste, aparentemente, complexo caminho, há opções estruturantes, que passam não só por considerar alguns standards orientadores (exemplo: Transmodel, ITxPT, NeTEx, SIRI, TAP TSI…), mas, cientes de que a utilização de standards requer bom senso, recomenda um olhar para as boas práticas do mercado.

Temos em Portugal muito caminho desbravado, no melhor espírito dos descobrimentos marítimos e um acumulado de experiência, que em muito pode ajudar os novos players da mobilidade, incluindo as autoridades, a organizarem-se, no sentido de beneficiarem dos mecanismos para cumprir a sua responsabilidade de gestão integrada e transversal da mobilidade, e o caminhar para conceitos MaaS, mesmo em regiões de menor densidade populacional e com menor capacidade de investimento.

No momento que se vive, relativamente às concessões de transporte público, e quando ambicionando a gestão integrada da mobilidade, algumas características e desafios são importantes:
• Modularidade, separando o software do hardware, permitindo que a autoridade assuma a plataforma de software (a cidade inteligente) e o operador o hardware (a gestão da infraestrutura), o que permite otimizar o investimento e custo operacional e oferecer uma longa vida e flexibilidade ao sistema;
• Interoperabilidade, implementando a bilhética de forma “modularmente inteligente”, que funcione em todo o tipo de terminais, e interoperável com todas as tecnologias de “média” (exemplo: cartões contactless Calypso e Mifare, NFC, QR-codes, EMV contactless, Bluetooth, etc.) e com sistemas existentes, sem esquecer a emergente tecnologia blockchain;
• Stored Value e Account Based Ticketing, suportando o armazenamento dos direitos de viagem, por exemplo, em cartões (stored value), mas também na cloud (Account Based Ticketing ou ABT), ou misto, facilitando a integração com outros serviços de mobilidade, a caminho da “conta de mobilidade” do viajante;
• Sustentabilidade, usando os mecanismos referidos para alargar o impacto desta “conta de mobilidade”, gerindo, de forma dinâmica e transversal os direitos e responsabilidades dos cidadãos, no contexto dos serviços de mobilidade e de outros serviços sociais (exemplo: alimentação, escolas, saúde, resíduos, habitação…), influenciando a sustentabilidade das cidades, através da utilização de ferramentas de medição e recompensa de comportamentos ambiental, social e economicamente sustentáveis. A título de exemplo, a capacidade de incentivo à suavização da procura ou da combinação modal, permite reduzir a concentração de viajantes e utilizar os recursos disponíveis de forma mais eficaz, até do ponto de vista de saúde pública;
• Seamless Travel, oferecendo um modelo de utilização em que o cliente só precise de apresentar o seu dispositivo (exemplo cartão ou smartphone), quando quer viajar, sendo o sistema a rastrear todas as suas etapas de viagem e capaz de inteligentemente calcular o preço para cada cliente;
• Check-In/Be-Out (CIBO), tirando partido das tecnologias disponíveis, pela “modularidade” e “interoperabilidade”, e uma vez que o cliente inicie uma etapa viagem (check-in) o sistema deve ser capaz de perceber quando essa etapa termina (be-out), simplificando ainda mais o conceito de Seamless Traveling;
• Otimização de tarifas/pacotes e promoção da sustentabilidade, implementando algoritmos inteligentes que calculem a tarifa otimizada para cada viajante, não só em função dos seus direitos e perfil, mas também dos padrões de viagem, detetados pelo Seamless Travel e CIBO, e até da sustentabilidade, recompensando os bons comportamentos, num sentido mais lato, integrado e inclusivo;
• Pagamentos bancários ou social currencies, tirando partido do sistema bancário, desde a utilização de terminais e redes muito disseminados, que permitem reduzir custos de investimento, até à aceitação dos cartões e meios de pagamento e de acquiring disponíveis, ou até mesmo, o seu cruzamento com a social currencies, que servem de suporte à melhoria da sustentabilidade nas cidades e das economias locais;
• Melhor oferta de serviço de transporte público, ajustando a oferta de forma mais dinâmica, a partir dos dados de origem e destino, recolhidos por exemplo, pelos mecanismos de Seamless Travel e CIBO, e beneficiando dos mecanismos de promoção da dimensão “sustentabilidade”, como referido acima;
Muitas destas características são já parte integrante de alguns sistemas de mobilidade em Portugal, que procuraram seguir as melhores práticas. São os casos do Sistema Intermodal Andante e da aplicação móvel ANDA™ da região do Porto (TIP), e do Sistema de Bilhética Integrado do sistema de mobilidade de Cascais (MobiCascais), que integra e é interoperável com o Sistema Intermodal LisboaViva da região de Lisboa (OTLIS).



Com uma génese diferente, ambos partilham algo em comum: consideraram as diversas características e desafios, o que tem permitido organizar, de forma gradual e sustentável, a relação entre autoridades, operadores e indústria, como benefícios para todos e, acima de tudo, para o serviço às populações.

As características identificadas são veículos para a integração de bilhética, mas sobretudo conferem capacidade de gradualmente oferecer e gerir mobilidade integrada às populações e, sobretudo, suportar uma gestão holística de comportamentos, nas cidades ou regiões.

Num momento em que a mobilidade não se restringe a cada cidade, exigindo integração com municípios vizinhos ou com ligações de longa distância, estas características tornam-se ferramentas fundamentais para apoiar a própria descentralização e sustentabilidade do país, e o desenvolvimento das economias locais. A boa notícia é que tudo isto é já uma realidade pensada, criada e implementada em Portugal, por operadores portugueses, em colaboração com a indústria portuguesa, e acima de tudo, reconhecida internacionalmente, como aconteceu quando o sistema móvel ANDA™ que conquistou, em novembro de 2019, o Calypso Awards em Cannes, na categoria de Best Customer Practice.
por: CARD4B
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