quinta-feira, 16 de Julho de 2020

 
Reta
Passageiros & Mobilidade
03-04-2020

Curto-circuito no MaaS?
Para quem não tem acompanhado os temas da mobilidade nos últimos anos, MaaS é o acrónimo de Mobility-as-a-Service. Baseia-se na perspetiva de assentarmos a nossa mobilidade na combinação de vários serviços públicos (coletivos ou individuais, regulares ou partilhados), em substituição da viatura privada. Tudo isto através de pacotes de serviços, à imagem das ofertas integradas dos operadores de telecomunicações, com custos, flexibilidade e simplicidade muito atraentes, face à aquisição, utilização e gestão inerentes à posse de um carro.

Ainda muito longe de ser hoje um conceito de oferta e procura generalizadas, o MaaS já era uma da meia dúzia de buzzwords identificadas como interessantes de seguir num artigo desta coluna, escrito há três anos e meio. E parece que, aos poucos, se vai assumindo como algo por onde o futuro vai passar, especialmente promovido pelos decisores públicos mais preocupados com a sustentabilidade orgânica, económica e ambiental das suas cidades.

O MaaS surge do cruzamento de várias linhas de evolução, algumas já muito bem estabelecidas (como a intermodalidade) e outras mais recentes, mas que têm vindo a impor-se a bom ritmo, tais como Mobile-Ticketing (telemóvel como suporte de bilhetes), Seamless Mobility (integração com planeadores de viagem, check-in/check-out, etc.) e Account-Based (contas pós-pagas, pay-as-you-go, etc.) – mais três buzzwords do artigo de há três anos e meio...

Mas há uma outra buzzword que se tem revelado muito difícil de concretizar e que, logo para azar do MaaS, é a mais importante para a sua implantação. Trata-se do Open-Loop e consiste na integração operacional entre o promotor de MaaS, conhecido como MaaS Provider, e os operadores que executam os serviços. Em termos práticos, como é que eu, que sou cliente de um dado MaaS Provider, usando o instrumento que ele me dá para consumir serviços (geralmente uma app), consigo entrar num metro, estacionar num lugar pago ou alugar um veículo partilhado?

A designação Open-Loop, a grande buzzword do momento, aparece por oposição ao modo como os operadores tradicionalmente funcionam: em circuito-fechado (closed-loop), isto é, reconhecendo apenas os títulos que eles próprios emitem como meio de conferir o direito de consumir um serviço. É como se cunhassem uma “moeda” própria e montassem uma rede, por vezes vasta, para o câmbio e aceitação dessa “moeda”. Mesmo a intermodalidade não foge a este princípio, apenas um conjunto mais alargado de operadores decide adotar uma “moeda” comum, tal como aconteceu com o euro.

O Open-Loop vem abrir este circuito, passando os operadores a admitir formas de pagamento distintas da sua própria “moeda”. Este é um terreno intensamente explorado há muito tempo no setor financeiro, através das entidades que operam no mercado dos cartões bancários. E não é que estas entidades já começaram a ver a mobilidade como um filão privilegiado para alargar o seu campo de ação?

Tudo começou em Londres, onde é possível utilizar o cartão bancário sem contacto, diretamente para abrir a gate do metro ou para validar a bordo do autocarro. Isto sem escolher previamente qualquer título, ou seja, com zero de complexidade tarifária, mas já com alguma inteligência de tetos diários e semanais. E, face às ameaças sentidas pelos cartões bancários no meio de toda a revolução em curso nos serviços financeiros, tendo à cabeça as fintechs e as transferências imediatas (nomeadamente nos 36 países da área SEPA), esta tendência vai mesmo tornar-se num caso sério.

Temos então o MaaS entalado entre as “moedas” próprias dos operadores e o Open-Loop dos cartões bancários. As primeiras, porque podem constituir propostas de valor competitivas, não só para os clientes frequentes, pela especialização que normalmente apresentam, mas também para os próprios operadores, dada a ausência de intermediação. O segundo, pela enorme conveniência que a utilização direta de cartões bancários representa para os clientes ocasionais.

Resta agora ao movimento MaaS olhar para este cenário e tirar conclusões. Pode começar por pensar na necessidade prioritária da sua proposta de valor cativar claramente não só os clientes, mas também os operadores. Em seguida, pode questionar se a concorrência direta do setor bancário não leva a que um MaaS Provider tenha forçosamente de se constituir como entidade financeira. Ou serão as entidades financeiras a constituir-se como MaaS Providers?

Mas a atitude fundamental deve passar por centrar o jogo da criação de valor no campo da mobilidade e não do pagamento ou da simples conveniência. Ou seja, focar na essência do MaaS, que é a criação de pacotes sofisticadamente integrados, competitivos e baseados num conceito de mobilidade de A a Z. Dito ainda de outra forma, apostar tudo na última buzzword de há três anos e meio que ainda falta recordar: o Smart-Pricing.
por: Manuel Relvas
Tags: MaaS   Manuel Relvas   Opinião  
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