sexta-feira, 13 de Dezembro de 2019

 
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Passageiros & Mobilidade
25-11-2019

Manuel Nunes – CEO Siemens Mobility Portugal
Siemens Mobility disponível para integrar parcerias com operadores ferroviários
Infraestruturas, material circulante, eletrificação, sinalização e gestão de tráfego – aliados à crescente digitalização e conectividade de sistemas – são alguns dos principais eixos de negócio da vertente Mobility da Siemens Portugal. Em simultâneo, e numa altura em que a aposta na ferrovia ganha novo ímpeto a nível nacional, a multinacional alemã espreita novas oportunidades que lhe permitam continuar a ser um parceiro tecnológico de referência para Portugal.



Transportes em Revista (TR) – Portugal assistiu, nos últimos anos, a várias decisões na área dos transportes e da mobilidade. Desde processos concursais para serviços de transporte, a medidas para a descarbonização do setor, passando pela aposta na ferrovia. Que olhar tem sobre o conjunto das medidas tomadas?
Manuel Nunes (MN) –
Enquanto Siemens, sentimos a responsabilidade para com a sociedade. No início, éramos uma empresa de B2C, para o consumidor. Depois, evoluímos para um B2B, para empresas. Hoje, somos quase um B2S, business to society, para a sociedade. Em Portugal, temos a responsabilidade de trazer o conhecimento e o know-how do mundo Siemens, para discutir soluções, apresentar as melhores práticas, ajudar a desenhar aquilo que pode vir a ser posto a concurso.

TR – Estão em curso diversas intervenções na Rede Ferroviária Nacional ao nível da infraestrutura. Quais os projetos em que a Siemens está envolvida?
MN –
No portefólio mundial da Siemens para a ferrovia está a construção de material circulante, nos seus vários tipos: metro ligeiro, metro pesado, locomotivas, carruagens. Além disso, estamos igualmente presentes na eletrificação: catenária e subestação; na sinalização; e na manutenção destes serviços. Em Portugal, estamos presentes em todas estas matérias.
Atualmente, ao nível do material circulante, não houve ainda nenhuma adjudicação, mas temos seguido com atenção todos os processos em curso. Ao nível da eletrificação, estão em cima da mesa concursos onde a catenária tem vindo a ser lançada conjuntamente com a construção civil, assim, aparecemos somente como subfornecedores de empresas de construção civil. Já ao nível da tração (subestações), os concursos são geralmente autónomos, da IP, e concorremos diretamente enquanto Siemens. Com o período de crise, houve um interregno muito grande, onde não houve subestações a serem postas a concurso. Alandroal, foi posto em concurso no ano passado, e estamos indicados como ganhadores. Neste momento, está em processo de concurso a subestação de Runa (Linha do Oeste), onde vamos ser naturalmente concorrentes.

TR – A ferrovia tem vindo a ser alvo de um forte dinamismo através de programas como o Ferrovia 2020 ou o futuro PNI 2030. Qual a sua opinião sobre as taxas de execução do Ferrovia 2020?
MN –
Temos consciência que muitas coisas ficaram por realizar ou foram realizadas com atraso, mas temos uma atitude positiva e acreditamos que vão agora acontecer. A mobilidade não é uma moda, é uma necessidade para a população, nomeadamente nos movimentos pendulares (casa-trabalho-casa), mas também para fins turísticos. Apesar de no período de crise muitas obras terem estagnado, acreditamos que sejam ainda realizados muitos projetos em torno da mobilidade por ferrovia. Esta é verdadeiramente uma necessidade objetiva para o país.

TR – Considera estas intervenções essenciais para uma rede ferroviária mais moderna e mais eficiente? Conseguirão dar resposta às necessidades do mercado, quer de transporte de passageiros, quer de mercadorias?
MN –
Em relação ao transporte de mercadorias, é bom recordar que somos um país periférico, onde a indústria não está tão desenvolvida quanto gostaríamos. Temos boas rodovias, bons portos... tudo fatores que apontam dificuldades para o transporte de mercadorias por ferrovia. Honestamente, acredito que a nossa economia tem de passar por uma ferrovia mais musculada. Em relação aos passageiros, a ferrovia tem uma grande resposta por dar, pois viveram-se muitos anos sem investimento nesta área. O material circulante é antigo, carece de manutenção e recuperação... há muito para fazer numa área vital e com tamanha importância como é a ferrovia.

TR – O PNI 2030 tem alocados cerca de seis mil milhões euros para a ferrovia. Esta é uma oportunidade para o país e para a indústria? Quais são as prioridades?
MN –
É uma grande oportunidade e tem de ser bem aproveitada por Portugal, mas não cabe à Siemens estabelecer as prioridades. Não fugimos à nossa responsabilidade enquanto parceiros, e estamos ativos a sugerir alternativas tecnológicas e possíveis soluções, ajudando assim a que as prioridades sejam estabelecidas num enquadramento mais amplo. Enquanto player que vive a mobilidade há bastante tempo, defendo a convergência em torno de um plano para a mobilidade, a longo prazo, de consenso, que sirva os interesses do país, assegurando que um setor tão importante como o nosso não seja campo de batalha partidária.
Claro que temos a nossa opinião sobre as prioridades a estabelecer e, falando de investimentos a longo prazo, como é o caso, consideramos que há que olhar para o que faz sentido, não hoje, mas amanhã. Nos projetos onde a Siemens poderá estar envolvida, teremos sempre uma perspetiva de ciclo de vida e de sustentabilidade, e não uma perspetiva de curta duração.

TR – Qual a visão da Siemens sobre liberalização do transporte ferroviário em Portugal? Acredita que essa liberalização vai ter expressão no nosso país?
MN –
É tanto uma oportunidade como um desafio. Acredito, verdadeiramente, que esta é uma oportunidade para os operadores melhorarem o serviço, numa altura em que o investimento na ferrovia vai certamente acontecer. A entrada de operadores privados será um fator positivo para o setor ferroviário nacional.



TR – A Siemens está disponível para integrar soluções com novos operadores?
MN –
A Siemens deixou de se posicionar, há bastante tempo, apenas como um fabricante de tecnologia de qualidade. Estamos sempre interessados em olhar para novos negócios, e este é claramente um. Já o temos feito pelo mundo fora, e temos muita vontade de participar em Portugal.

TR – No concurso para o fornecimento de material circulante para o Metro do Porto, a Siemens apresentou uma carta justificativa da sua não participação. Quais as razões para tal decisão?
MN –
A Siemens não apresentou proposta com a consciência que estaria num enquadramento que não lhe era favorável. Primeiro, face à quantidade reduzida de veículos. Segundo, a engenharia que era necessária para adaptar uma plataforma a uma infraestrutura já existente, acartaria custos significativos. Em suma, a Siemens teve a convicção que teria uma propostva que não se encaixava no budget do cliente, e com os níveis que achamos que uma empresa como a Metro do Porto e os portuenses merecem.

TR – O Metropolitano de Lisboa lançou igualmente um concurso para aquisição de material circulante. Como é que a Siemens olha para os outros consórcios selecionados?
MN –
Com o máximo espírito competitivo. Vamos fazer a nossa melhor proposta e estamos cientes que temos um parceiro [Stadler] que nos vai ajudar.

TR – Já no concurso para o fornecimento de material circulante para a CP, estão em cima da mesa propostas da Stadler, da Talgo e da CAF. A que se deve a ausência da Siemens?
MN –
A Siemens seguiu de perto todo o processo, mas não entregou qualquer proposta, por razões muito próximas daquelas que também nos levaram a não concorrer ao Metro do Porto. Estamos a falar de 22 veículos (12 híbridos e dez totalmente elétricos), mas são duas subfrotas que, em termos de engenharia, necessitariam de um esforço duplicado.

TR – Como é que a Siemens olha a concorrência, nomeadamente para a entrada de empresas chinesas no mercado europeu?
MN –
Em termos perfeitamente conceptuais, a entrada de um novo concorrente no mercado estimula a concorrência e a nossa capacidade para fazer melhor. Desde que exista igualdade de condições concorrenciais, a entrada de novos concorrentes é boa para o setor.

TR – O Governo, através da CP, tem um projeto para construir um “comboio português”. Portugal tem capacidade, conhecimento e know-how suficientes?
MN –
Os passos têm de ser dados na medida do comprimento da perna. Nós, portugueses, temos mostrado ter uma enormíssima perna em muitas áreas e em muitos momentos.
A Siemens Mobility considera-se uma parceira de Portugal: e também com experiência consolidada na produção nacional. Na área ferroviária temos o exemplo de sucesso das locomotivas 4700 cuja montagem final em Portugal permitiu reforçar o sólido know-how de manutenção existente. Todavia, temos consciência que a tecnologia necessária para construir um comboio é muito complexa...

TR – Como pode o SIMEF contribuir para este projeto?
MN –
O SIMEF é uma empresa de manutenção. Tem técnicos de enormíssima qualidade e com formação de referência. É um polo de conhecimento indiscutível e muito útil que continua a enriquecer o tecido ferroviário nacional.

TR – A Siemens está igualmente presente na descarbonização dos transportes, nomeadamente nos transportes pesados de passageiros. Que avaliação faz da parceria com a CaetanoBus?
MN –
O saldo é francamente positivo e espero que continue a marcar pontos. Esta foi uma atividade que começou na Siemens Mobility, mas face ao peso que tem a área dos carregadores, a vertente de e-buses foi transferida para a área de eletrificação dentro do universo Siemens. A transformação que vai existir no mundo da distribuição de eletricidade para veículos elétricos será brutal. Espero que em projetos futuros consigamos continuar a desenvolver competências que nos permitam desenvolver a nossa engenharia e as nossas soluções – se possível com parceiros nacionais de qualidade, como é a Salvador Caetano, e felizmente há vários exemplos de potenciais parceiros de referência em Portugal.

TR – Cada vez mais as cidades olham para a bicicleta em modo partilhado como uma solução de mobilidade urbana. Como interpreta esta tendência?
MN –
A Siemens considera a intermodalidade um fator importantíssimo e está cada vez mais interessada em desenvolver e ganhar competências na área de big data. Por exemplo, quando se pensava que as bicicletas em Lisboa seriam para turistas, efetivamente vemos que não é assim. As estatísticas do dia a dia mostram que as deslocações são pendulares (casa-trabalho-casa) e os veículos estão a ser usados com o objetivo para o qual foram disponibilizados. Os modos suaves são uma área que marca passos para o futuro e onde queremos estar presentes.

TR – Os dados têm hoje um grande valor económico e são cruciais para a gestão dos centros urbanos. Como olha para a realidade das smart cities e para a mobilidade inteligente em Portugal?
MN –
Os dados que conseguimos extrair são importantíssimos para o utilizador, para quem gere cada um dos sistemas, para quem gere uma cidade, para quem gere mobilidade, e para quem gere o território. Quem gere uma cidade tem nos dados uma fonte de informação e um campo para atuar riquíssimo.

TR – O MaaS é hoje considerado o próximo passo para a comercialização dos serviços de mobilidade. A Siemens equaciona posicionar-se neste tipo de soluções?
MN –
A Siemens considera-se obrigada a acompanhar estes assuntos na primeira linha e a estar na génese desta evolução. Há que ganhar músculo, desenvolver competências, mas vamos estar certamente no mercado.

por José Monteiro Limão e Pedro Venâncio
fotos de Bernardo Pereira

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