sexta-feira, 13 de Dezembro de 2019

 
caetano 468x60
Passageiros & Mobilidade
22-11-2019

Como é que o senhor Oliveira da Figueira se dá na era da internet?
Oliveira da Figueira é a única personagem portuguesa nas histórias do Tintim. Com base nos arquétipos de meados do século passado, não espanta que esteja emigrado na Arábia e seja um vendedor de bugigangas, com enormes dotes de persuasão. Consegue mesmo o feito inédito de iludir a proverbial astúcia do intrépido herói, vendendo-lhe um monte de coisas inúteis. E ficam amigos para a vida, conforme se demonstra em episódios posteriores.

Apesar de tudo, temos aqui dois aspetos que ainda hoje caracterizam bem a nossa maneira de ser, aliás intimamente relacionados: a mentalidade comercial e as competências relacionais. No paradigma comercial, o mundo é um espaço recheado de oportunidades. O segredo está na perspicácia necessária para delas retirar valor, muitas vezes com base em relações pessoais de confiança.

Outras gentes, noutras paragens, comportam-se de maneira diferente. Têm uma mentalidade industrial e veem o mundo como um sistema. Acreditam em criar cadeias de produção interdependentes e colocam todo o seu esforço na otimização dessas cadeias, como forma de ganhar competitividade, para daí retirarem valor. A confiança baseia-se na qualidade do que é produzido e na reputação assim construída. Não é difícil encontrar exemplos desta realidade no nosso dia a dia. Quando envolvidos numa situação crítica e que nos é estranha, como um internamento hospitalar, não nos passa pela cabeça que o sistema trate bem do assunto; o que fazemos é tentar encontrar alguém conhecido que consiga “mexer os cordelinhos”, para que as coisas corram o melhor possível. Assim sendo, limitamo-nos a dizer mal ou, quando muito, um impulso vingativo leva-nos a apresentar uma reclamação.

Outro exemplo gritante é o de uma empresa de mobiliário, proveniente de um contexto fortemente industrial, que se esforça imenso a explicar que o bom preço dos seus artigos não resulta de uma qualidade inferior, mas de um desenho inteligente, que permite ao cliente tratar ele próprio do transporte e da montagem. Alguém lhes devia dizer que nos é completamente indiferente o motivo pelo qual são baratos, o que interessa é se são uma pechincha ou não.

E o tema da pechincha traz outra consequência: somos especialistas em analisar a qualidade de tudo. Sim, todos conseguimos aferir se um móvel é bom tocando na madeira ou se um carro está em boas condições, apenas pelo trabalhar do motor. E se assumirmos a falha de não estarmos à altura de alguma avaliação rigorosa, temos sempre um amigo perito na matéria. Convém realçar que ambos os modelos, comercial/relacional e industrial/sistémico, funcionam, desde que no devido enquadramento cultural. Mas a sua relação não é simétrica: enquanto normalmente as pessoas nascidas no mundo relacional facilmente se integram, e até brilham, em ambientes sistémicos, já no sentido contrário as pessoas sentem-se perdidas e dificilmente se adaptam. Por outro lado, os indicadores de qualidade de vida têm vindo a pender consistentemente, ao longo dos últimos 200 anos, para o lado do modelo industrial.

E em que é que os sistemas de informação contribuem para este tema?
Como o próprio nome indica, o mundo sistémico é o seu habitat natural. Por isso, foram o instrumento decisivo para a industrialização do comércio, deixando para as vendas uma fatia cada vez mais reduzida do valor das transações. A seguir, trataram de industrializar as relações pessoais, através de redes sociais, assistentes digitais e mensagens eletrónicas. Enquanto antes íamos a uma loja falar com um vendedor, preferencialmente nosso conhecido, agora recebemos um anúncio de algo que nos interessa e acreditamos mais na opinião de uma quantidade de pessoas que não conhecemos do que no nosso amigo especialista. Podemos achar sinistro que estranhos saibam o que nos interessa ou pôr em dúvida as avaliações de milhentos compradores anteriores, mas toda esta estranheza pode ser igual à que um hortelão medieval sentiria ao comprar legumes num supermercado.

Em conclusão, as competências distintivas do nosso compatriota Oliveira da Figueira parecem estar do lado errado do rolo compressor da evolução. O que não é grave em si, porque ele é apenas uma personagem de banda desenhada. Mas já é preocupante na medida em que espelha a nossa realidade coletiva. E as sociedades tendem a evoluir de forma lenta, uma vez que quem mais decide o futuro são os que melhor interpretaram os critérios de sucesso do passado.
Precisamos de fatores disruptivos que nos obriguem a mudar em tempo útil. E as tecnologias de informação, pelo seu desenvolvimento vertiginoso sem paralelo, podem ser um fator decisivo para este salto da nossa identidade coletiva. E será que devemos estar preparados para que, estando todos sempre ligados e com a vida inteira exposta para o mundo, se possa esvaziar o nosso imaginário atual, como o significado da palavra “saudade”?

por Manuel Relvas
Tags: Manuel Relvas   Opinião  
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