terça-feira, 25 de Junho de 2019

 
STCP
Passageiros & Mobilidade
19-02-2019

Monitorização de deslocações
Como o TAToo já transformou dados em informação valiosa na área da mobilidade!
O momento deixou de ser aquele em que não existem dados; de facto, os dados (muitos!) existem e às vezes nem se sabe bem o que fazer com eles. Se não forem transformados em informação, os dados nunca passarão de dados.



Num momento em que os projetos relacionados com modos suaves se multiplicam pelo país, as decisões que contribuam para a adesão dos cidadãos a alternativas mais sustentáveis devem ser bem ponderadas. De facto, ter uma rede de ciclovias ou montar um sistema de bikesharing implica investimentos consideráveis para qualquer autarquia portuguesa, pelo que dispor de dados que ajudem, por exemplo, à definição do melhor traçado ou à correta identificação dos locais onde implantar as estações de bicicletas podem ser, hoje em dia, um poderoso auxílio na tomada de decisão. O projeto TRACE – Walking and Cycling Tracking Services (http://h2020-trace.eu), do Programa Horizonte 2020, terminou em maio de 2018 e, além de procurar criar ferramentas que promovessem a mudança de comportamentos através da recolha de dados GPS (das quais são exemplos as aplicações Positive Drive e Biklio, criadas durante o projeto, e a iniciativa Traffic Snake Game), focou-se também na avaliação do potencial da análise de trajetórias pedonais e cicláveis que contribuíssem para a melhoria dos processos de planeamento e gestão. Assim, além das aplicações já referidas, foi também criada, no âmbito do projeto, a ferramenta TAToo – Tracking Analysis Tool, destinada a transformar os dados de tracking de peões e ciclistas em informação relevante, e que já foi apresentada em detalhe na edição n.º 172 da Transportes em Revista.

Tratar os dados de forma inovadora...
As trajetórias GPS das viagens (não só pedonais e cicláveis) são dados que só recentemente passaram a ser usados com frequência na área da mobilidade, permitindo a visualização dos comummente denominados “mapas de calor”, que permitem uma visualização rápida dos locais onde existe uma maior concentração de pontos.

Com o TAToo, porém, as análises efetuadas podem ir mais além: através da operação de mapmatching (que atribui aos elementos da rede os pontos das trajetórias registadas), é possível calcular indicadores para as quatro “dimensões” de análise da rede (nós, arcos, zonas e pares origem/destino). Os indicadores oferecidos vão desde o volume de utilizadores, a sua velocidade média e distância percorrida, ao tempo de atraso, congestionamento e nível de serviço verificados.



A ferramenta permite utilizar tanto um mapa próprio como aplicar um mapa baseado no OpenStreetMap (OSM), que está disponível para todo o mundo de forma gratuita, e permite a segmentação dos resultados por tipo de utilizador, dia da semana, período do dia, sendo possível observar os resultados com recurso a softwares SIG (sendo logo criados automaticamente alguns mapas temáticos mais interessantes pela ferramenta) ou com gráficos produzidos pelo próprio TAToo.

… para obter resultados inovadores
Na fase final do projeto TRACE, as diversas cidades envolvidas no projeto, que tinham implementado uma ou mais ferramentas desenvolvidas (Positive Drive, Biklio e Traffic Snake Game), tiveram a oportunidade de testar também o TAToo, analisando os dados recolhidos por aquelas ferramentas.

Por exemplo, em Hasselt (Flandres, Bélgica), usando os dados do Positive Drive, foi possível confirmar a ideia de que a atratividade dos espaços pedonais contribui para que as pessoas usem esses espaços. Efetivamente, verificou-se uma grande correlação entre os volumes contabilizados pela aplicação e as ruas que apresentam melhores condições pedonais. Esta análise já poderia, como é lógico, ser realizada com a observação dos fluxos in loco, mas a utilização dos dados recolhidos por uma app e tratados por uma ferramenta específica vão mais além, possibilitando a perceção das origens e destinos destes fluxos e volumes relativos.



Em Lisboa, foram analisados os dados do Biklio, já que a capital portuguesa foi uma das primeiras cidades onde foi aplicado este sistema que recompensa quem chega às lojas aderentes de bicicleta. Das várias centenas de trajetórias analisadas, cerca de 17% foram registadas no renovado eixo central, entre Entrecampos e o Marquês de Pombal, onde a requalificação efetuada criou uma infraestrutura ciclável que vê a sua procura aumentar de dia para dia.

Contudo, existia a perceção empírica de que o fluxo de ciclistas era substancialmente superior entre Entrecampos e a zona do Saldanha, por comparação com o troço entre o Saldanha e o Marquês de Pombal. Esta perceção foi confirmada pelos dados do Biklio, tendo sido possível analisar com detalhe os movimentos nas imediações do Saldanha para perceber melhor o fenómeno. Assim, percebeu-se desde logo, por um lado, que havia uma grande dispersão de fluxos para a Av. Duque d’Ávila (onde se localiza uma das primeiras ciclovias construídas em Lisboa) e, por outro lado, que uma boa parte dos fluxos terminava precisamente na Praça Duque de Saldanha ou se desviava na Av. Casal Ribeiro.



Esta possibilidade de aferir com facilidade as origens e destinos dos utilizadores foi também um dos principais resultados da análise dos dados da aplicação SenseMyFEUP (nascida do projeto SenseMyCity), da Faculdade de Engenharia da Universidade do Porto, usada por estudantes e funcionários. Esta aplicação permitiu conhecer os principais fluxos pedonais e em bicicleta, possibilitando não só a distinção entre dias úteis e fins de semana, mas também a perceção da forte relação com os restantes campus da Universidade do Porto e com as principais áreas residenciais das imediações (como Areosa, Asprela ou Paranhos).

Apesar de pensada originalmente para as trajetórias em modos suaves, o TAToo permite analisar também outros modos de transporte. O exemplo de maior dimensão de aplicação da ferramenta foi realizado na área de negócios do Cloche d’Or, no Luxemburgo, onde cerca de 750 colaboradores de sete grandes empresas tiveram as suas deslocações monitorizadas (usando, uma vez mais, a aplicação Positive Drive) durante cinco semanas consecutivas (entre maio e junho de 2017). No total, mais de 18 milhões de pontos foram recolhidos e analisados, representando mais de 1,5 milhões de quilómetros percorridos e cerca de 19 mil viagens.

Com base nas análises efetuadas pelo TAToo (realizadas sobre cerca de 40% desses pontos, referentes às viagens em dia útil entre as 6h00 e as 20h00), foi possível não só perceber as origens e destinos dos fluxos dos trabalhadores daquela zona (muitos deles atravessando as fronteiras com França, Bélgica e Alemanha) mas também fazer uma análise inovadora relacionada com o potencial de carpooling de cada um dos pontos da rede. Assim, nos pontos de concentração de fluxos automóveis em direção à cidade do Luxemburgo – por exemplo em Arlon, na Bélgica, ou em Thionville, em França –, seria possível às companhias daquele distrito organizarem programas de partilha de viaturas de modo a reduzir a pegada ecológica dos seus trabalhadores.

Até onde pode ir a análise de dados?
A utilização do TAToo estará sempre condicionada à disponibilidade de dados em determinada cidade ou região e mesmo à sua representatividade, ainda que hoje em dia grande parte dos cidadãos já disponham de smartphones com aplicações que fazem tracking dos seus movimentos e que, posteriormente, disponibilizam (gratuitamente ou por venda) esses dados para análise.

Além das análises efetuadas e descritas nos parágrafos anteriores, a utilização do TAToo possibilita outro tipo de resultados muito úteis nos processos de planeamento de uma autarquia. A preparação de planos de mobilidade sustentável ou a definição de redes cicláveis podem ganhar fortemente com uma perceção clara dos fluxos e a ligação entre os volumes (geralmente obtidos por contagem por amostragem). O próprio algoritmo de mapmatching do TAToo consegue, aliás, obter uma fotografia mais rigorosa dos volumes numa determinada secção, por comparação com os “mapas de calor”, cujos resultados podem ser enviesados pela existência de maiores declives ou presença de semáforos, por exemplo.



O cálculo de indicadores como o nível de serviço num arco ou num nó da rede possibilita também a identificação de pontos de estrangulamento, numa era em que o cálculo do desempenho das infraestruturas já não se deve limitar ao tráfego automóvel.

O TAToo foi um esforço conjunto da TIS (especificações e user interface), do INESC-ID (módulo de conversão de mapas do OpenStreetMap) e da PTV SISTeMA (algoritmo de mapmatching e cálculo de indicadores), e continua a poder ser utilizado para conhecer mais eficazmente a mobilidade em modos suaves numa cidade ou área metropolitana.

Se pretender mais informações, pode contactar a equipa através do seguinte endereço eletrónico: tatoo@tis.pt


por André Ramos e João Bernardino
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