segunda-feira, 19 de Novembro de 2018

 
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24-08-2018
Em comunicado
ADFERSIT diz que CP está capturada pelos poderes políticos
A ADFERSIT - Associação Portuguesa para o Desenvolvimento do Transporte Ferroviário, emitiu um comunicado, sob o título "As consequências do Aprisionamento da Gestão da CP pelos Poderes Políticos" onde salienta "ser prejudicial a Portugal e ao Sector Ferroviário a situação de captura a que foi remetida a CP", reconhecendo ainda que nos últimos 25 anos houve uma " ausência de qualquer tipo de estratégia e, mais grave, de planeamento para a Empresa Pública incumbente num sector, competitivo ao nível europeu, como é o ferroviário". 

A Transportes em Revista teve acesso ao comunicado da ADFERSIT e publica o seu conteúdo na íntegra:

"As consequências do Aprisionamento da Gestão da CP pelos Poderes Políticos"
 

Se no início do Século XX o transporte ferroviário fervilhava com a construção de novas linhas que começavam a estender-se a todas as regiões de Portugal, permitindo a chegada do progresso, o conhecimento da mobilidade e a aproximação aos centros urbanos, no início deste Século XXI somos surpreendidos com um sector ferroviário em crescente declínio que chega a ameaçar a sobrevivência da sua centenária empresa transportadora detentora de uma das marcas mais conhecida dos portugueses: a CP – Comboios de Portugal.

A ADFERSIT- Associação Portuguesa para o Desenvolvimento do Transporte Ferroviário e Sistemas Integrados de Transporte, com mais de 30 anos de actividade e conhecimento técnico e científico, entende oportuno e curial tornar pública a sua posição sobre a grave situação que o sector ferroviário atravessa, nomeadamente ao nível da sua principal empresa, a CP. À semelhança da enérgica e decisiva posição tomada pela então ADFER em Abril de 1990, que propiciou as decisões governamentais que aprovaram o então polémico atravessamento ferroviário da ponte 25 de Abril, também no tempo presente se torna imperioso apelar à lucidez, coragem e bom senso no sentido de ser invertida esta trajectória de destruição do património de serviço, conhecimento e experiência de uma empresa como é a CP.

Não menosprezando o inexplicável atraso na electrificação de grande parte da Rede Ferroviária Nacional e a reconhecida deterioração da sua infraestrutura – o que tem contribuído inegavelmente para a progressiva degradação do serviço diariamente oferecido – teremos de reconhecer a ausência de qualquer tipo de estratégia e, mais grave, de planeamento para a Empresa Pública incumbente num sector, competitivo ao nível europeu, como é o ferroviário.

Com efeito, durante os últimos 25 anos imperou a “navegação à vista” sob a orientação e o comando de sucessivas Tutelas que teimaram em privilegiar a ausência de pensamento estratégico, e mesmo da capacidade de gestão, das diversas estruturas existentes, unicamente limitadas ao cumprimento das circunstanciais “orientações superiores”.

Não se tendo dado a devida relevância às consequências para a CP da aprovação de sucessivos Pacotes Ferroviários Europeus que impunham um redobrado esforço de reestruturação e modernização das suas estruturas e procedimentos, impõe-se ainda apontar dois inegáveis constrangimentos que conduziram à presente situação:

• A AUSÊNCIA DE UMA VISÃO COMERCIAL

Como sempre constituiu objectivo primordial de uma exploração comercial rentável, a OFERTA da CP tem de assegurar um funcionamento em REDE que potencie as ligações dos respectivos Serviços de Longo Curso, Regionais e Suburbanos, sendo decisiva a COMPATIBILIDADE de HORÁRIOS nas respectivas estações de intersecção das linhas ferroviárias.

A complementaridade dos comboios que prestam serviço no INTERCIDADES com os que realizam o serviço REGIONAL, a par de uma oferta frequente e confiável dos comboios que asseguram os SUBURBANOS, exigem uma permanente visão comercial integrada que, progressivamente, se tem vindo a desarticular nos últimos anos, função da decisão de “cortar custos nos serviços com menos procura” e da falta de material circulante, afectando a qualidade do serviço prestado e, crescentemente, não beneficiando dos efeitos sistémicos resultantes de uma exploração comercial assente numa rede ferroviária de âmbito nacional.

• A DESAQUADA ESTRUTURA OFICINAL EXISTENTE

É do conhecimento generalizado a necessidade da existência de recursos humanos qualificados para garantir uma circulação ferroviária em condições de Segurança, sendo o respectivo material circulante exigente em constantes operações de manutenção e a periódicas reparações que assegurem a permanente disponibilidade e fiabilidade do referido material.

Se durante sucessivos anos, a EMEF (responsável pela manutenção do material circulante e pertencente ao universo das empresas detidas pela CP) soube com assinalável profissionalismo e dedicação garantir os padrões de exigência de um serviço reconhecido como exemplar – conforme evidencia a parceria internacional existente com a NOMAD TECH e o SIMEF – os tempos recentes têm sido marcados por uma preocupante deterioração, expressa nos seguintes números referentes às taxas de imobilização previstas para 2018:



A situação é particularmente crítica nas automotoras eléctricas da Linha de Cascais, nas carruagens dos comboios de Longo Curso e nas automotoras diesel UDD 450 do Serviço Regional, onde nos dois primeiros tipos de material as imobilizações ultrapassam os 20% e nas automotoras diesel chegarão, antes do fim do ano, aos 37%. No caso do Serviço Regional, estão a ser seriamente afectados os serviços da Linha do Oeste, da Linha do Alentejo e da Linha do Algarve e não basta o Governo anunciar que irão ser admitidos trabalhadores para a EMEF.

Não há no mercado quadros e técnicos especialistas em manutenção de material circulante ferroviário à procura de emprego. Os trabalhadores que vierem a ser admitidos, e esperamos que o sejam, não estão aptos senão ao fim de um ano de formação nos locais de trabalho. O rigor técnico, o conhecimento e a experiência oficinal do material circulante ferroviário, não são compatíveis com a improvisação e o voluntarismo como agora se procura resolver a evidente falta de robustez oficinal a que se chegou. A EMEF necessita conhecer a sua carga de trabalho para os próximos 5 anos como única forma de recrutar, formar e capacitar o seu pessoal oficinal, adaptar as instalações ao plano de intervenções a executar e proceder ao adequado aprovisionamento dos materiais e peças a utilizar.
Quando sabemos que a resposta necessária da EMEF só pode surgir ao fim de vários meses, o que dizer das aquisições de novo material circulante, com prazos de entrega entre dois e três anos? Há ou não dinheiro para se iniciarem os procedimentos de concurso para a sua aquisição? Quando se vão iniciar? Quais são as linhas que vão ser contempladas com o novo material circulante?

Ao Governo compete-lhe esclarecer como tenciona resolver a insuficiência da oferta de comboios da CP que, não duvidamos, está para durar por muitos meses.

Estas são questões de inegável actualidade que continuam há demasiado tempo sem resposta, como sem reposta se mantém a resolução da Linha de Cascais, dependente de uma tão cara e complexa quanto discutível integração na Rede Geral, através da ligação à Linha de Cintura com a introdução da uma tensão de catenária de 25kV e a exorbitante despesa com a resolução do intrincado nó rodoferroviário de Alcântara, para ver o seu obsoleto material circulante substituído e resolvida a falta de qualidade da oferta actual.

Sensibiliza-nos muito o actual e súbito interesse, manifestado por políticos, autarcas e inúmeros Órgãos de Comunicação Social pela falta de um transporte ferroviário digno das necessidades das nossas populações. Mas estarão todos conscientes que, há quase duas décadas, não é feito o mínimo necessário à sobrevivência e desenvolvimento desse modo de transporte? Se tanto se falou e fez em prol da produção de energias renováveis, nada ou pouco se fez para que os meios de transporte que as podem utilizar, em favor do ambiente, sobrevivam e se desenvolvam.

Longe vão os tempos do passado, em que no agora chamado “Interior”, se acertava o relógio pela passagem diária dos comboios. Agora, trata-se de construir os tempos do futuro onde o combate à desertificação do “Interior”, também, terá de passar pelo relevante papel económico/ambiental que o transporte ferroviário deverá assumir com uma adequada sustentabilidade.

Mais do que acompanhar a “despudorada campanha pública de descredibilização da CP” – a que não estranhamos ver aliados corporativos apostados já na corrida para futuros lugares num próximo Governo – agora trata-se de traçar um Plano de Acção Imediato que, no quadro da elaboração do Plano 2030, permita mitigar a grave situação que se vive e que ameaça agravar-se até ao fim de 2018.

A previsível chegada de “novos operadores” não deverá significar o definhamento e, muito menos, a extinção da CP, tornando-se imperioso começar por estabilizar o funcionamento da empresa, dotando-a de um orçamento que não seja “a fazer de conta” e autorizar os investimentos em material circulante, cujas necessidades são conhecidas desde 2008, repondo a capacidade operacional da CP mas, simultaneamente, assegurando a preservação de um património de conhecimento e experiência que se torna indispensável para garantir a liberalização e o futuro do transporte ferroviário em Portugal.

Por isso, entende a ADFERSIT ser prejudicial a Portugal e ao Sector Ferroviário a situação de captura a que foi remetida a CP.

Lisboa, 24 de Agosto de 2018

A DIRECÇÃO DA ADFERSIT



 
por: Pedro Pereira
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Comentários
26-08-2018 19:51:28 por manuel conde
E demasiado evidente e só não vê quem não quer,pois para isso os políticos fazem todos os possíveis e imaginários estratagemas para não fazerem ligações decentes de uns comboios para outros, para invocarem a tal clausula de pouca procura, assim se fizeram os crimes de fechar Lousã, Beja, Tua, Corgo, Vouga e a seguir oeste, e Algarve. Para Cascais o sonho é arrancar tudo encher de alcatrão e cobrila de carros, muitos, é preciso gastar muito petróleo, só assim teremos,neste pobre país, o desenvolvimento sustentávelPaz a todos.
26-08-2018 3:47:33 por LUIS RIBEIRO
A CP. PARA CRESCER TERA QUE MODERNIZAR AS LINHAS E MANDAR CONSTRUIR NOVOS TRAINS EM PORTUGAL OU NOUTRO PAIS POR CONCURSO, E NAO ALUGAR TUDO PORQUE E CARO E NUNCA E PRODUTO NACIONAL, ESPEROQUE A EMEF COMEE A MONTAR NOVAS CARRUAGENS COMO JA FEZ EM TEMPOS MESMO QUE SE TENHA DE JUNTAR A OUTRA EMPRESA COM UM BOM CONHECIMENTO TECNOLOGICO FERROVIARIO.
  
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