segunda-feira, 27 de Março de 2017

 
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Carga & Mercadorias
19-01-2017

Estudo da PwC
Portos Portugueses: Um caso de sucesso com futuro!
As Comunidades Portuárias solicitaram à PwC a realização de um estudo que reflete a médio e longo prazo uma possível evolução futura dos portos nacionais. O trabalho, que já foi apresentado à Tutela, chama-se “Portugal – O Porto Europeu do Oceano Atlântico”.

Apresentar, sustentadamente, durante vários anos, um crescimento anual médio na ordem dos 4,5% do movimento de carga nos portos do continente, num período em que a economia nacional viveu momentos de grande instabilidade e registando ritmos de crescimento anémico ou negativo, só pode ser motivo para qualificar o trajeto dos portos portugueses e das entidades envolvidas no processo logístico-marítimo como um caso de sucesso da economia portuguesa.

É certo que nem tudo correu bem e que muito há para fazer em diversos planos do processo logístico-portuário, no entanto, não analisar e não sublinhar os bons resultados alcançados, seria desperdiçar uma grande oportunidade para refletir sobre os fatores críticos de sucesso, bem como os pontos a melhorar, os quais terão impacto no planeamento do crescimento futuro do setor.

Muitos são os fatores que explicam este elevado crescimento da movimentação da carga em porto e, sem dúvida que, os carregadores, os donos da carga, a indústria transformadora, o setor primário e o setor energético, entre outros setores, contribuíram em muito para a performance conseguida. Uma boa parte do crescimento resulta da reação da indústria nacional que, num cenário de redução da procura interna, procurou novas encomendas e novos mercados fora do país aumentando as exportações.
 
Outro fator extremamente relevante que esteve na base do crescimento da carga em porto foi o consistente trabalho de melhoria contínua e de cooperação que todos os players do setor têm vindo a realizar, desde há vários anos, no sentido de melhorar toda a logística relacionada com os portos, que fez com que o sistema portuário nacional esteja mais competente, mais eficiente e mais capaz de entregar valor à economia nacional. A transformação dos portos de carga em empresas com equipas de administradores experientes e com mandatos plurianuais, revelou-se um ativo importante neste desenvolvimento. A celebração de concessões e de acordos de médio e longo prazo com empresas com capacidade de modernizar os processos associados à movimentação de carga e com uma visão comercial relativamente à atração de novos clientes e nova carga contribuiu igualmente para o crescimento. As empresas de transporte marítimo dinamizaram e aproveitaram muitas oportunidades nos portos portugueses, os quais demonstraram melhor desempenho e favoreceram todo o processo de crescimento. Os agentes de navegação, as alfândegas, a autoridade marítima, o capital humano que trabalha nos portos foram também críticos em todos os processos de modernização. A academia também não ficou de fora deste processo, tendo assessorado múltiplas inovações que se conseguiram em termos de engenharia, de informação e de comunicação, de transporte entre outras áreas. Foram várias as entidades que cooperaram e contribuíram para esta dinâmica e movimento que permanentemente deteta e sugere pontos de melhoria no processo logístico-portuário.

Em todo este caminho de melhoria dos portos ao longo do tempo, para além dos bons resultados em termos de carga movimentada, existe também um outro ganho que é importante salientar: as entidades que operam neste setor souberam desenvolver o espírito associativo, construindo associações ativas que defendem os seus associados e que ao mesmo tempo entregam contributos e sugestões de melhoria importantes para o objetivo de aumentar a competitividade dos portos portugueses à escala global. Caso este sistema associativo continue forte e cresça em termos de comunicação, proatividade, contributos construtivos e presença nos fóruns internacionais, tornar-se-á num dos maiores ativos gerados nos últimos tempos. A permanente instabilidade internacional, a feroz competição global e a mudança constante que se avizinha no desenvolvimento futuro, obrigam todos os sistemas a serem ágeis, para se adaptarem rapidamente à mudança e para agarrarem os saltos de paradigma que dão a liderança. A agilidade de um sistema portuário está diretamente relacionada com a força e a flexibilidade da rede de associações e de entidades que trabalham no setor portuário. Neste contexto, as associações e as comunidades portuárias podem desempenhar um papel chave no desenvolvimento dos portos.
 
Neste percurso bem-sucedido de crescimento da carga movimentada em porto, importa refletir se se podia ter ido mais longe, se, no mesmo tempo, se poderia ter crescido mais, se se ganhou competitividade face a outros países. Para que exista alguma objetividade na análise, convém fazer-se um benchmarking. Por exemplo, se olharmos para a evolução do Logistics Performance Index (LPI) de 2007 a 2014, percebemos que o ganho de competitividade face a outros países Europeus não é evidente. Principalmente, quando comparado com o nosso competidor direto Espanha, a evolução do LPI de Espanha foi melhor do que a portuguesa.

Mais recentemente, saíram novos resultados para o ano de 2016 relativos ao LPI, no entanto, verificou-se uma mudança de critérios de cálculo do LPI o que dificulta a comparação com o passado. Aparentemente, esta mudança de critérios favorece os países emergentes em detrimento dos países desenvolvidos. Ainda se está a analisar a comparabilidade e impacto desta mudança de critério, sendo que fica o sinal claro de que as economias emergentes estão a preparar-se para serem muito competitivas no setor portuário à escala global.

Este é um exemplo de benchmarking, outros exemplos poderiam trazer outras conclusões, no entanto parece ser consensual que Portugal tem ainda uma grande margem de progressão para aproveitar todo o potencial logístico que a sua privilegiada localização geográfica lhe confere. Por exemplo, se olharmos para o caso de Singapura, também com uma posição geográfica favorável, verificamos que todo o país está focado no desenvolvimento dos portos e do processo logístico como motor de desenvolvimento da economia, fazendo com que as decisões sejam céleres, assim como a realização, no terreno, dos projetos delineados é rápida e eficaz, tendo assim melhores resultados à escala global. Sem dúvida, que em muitas matérias Singapura é um exemplo a seguir a nível internacional.

Monitorizar sistematicamente o que as melhores economias fazem, em matéria de portos e logística marítima, é certamente uma das chaves para o sucesso futuro do setor. Da mesma forma, perceber as megatendências económico-sociais que estão a acontecer à escala global é fundamental para posicionar os portos, de forma a acompanharem e, se possível, liderarem os saltos de paradigma.

Quando se olha para a evolução dos tempos, percebemos que a tecnologia tem aumentado muito de importância nas nossas vidas, de tal forma que a par do envelhecimento e crescimento da população, da mudança de polos económicos, da urbanização e das alterações climáticas é uma das megatendências à escala global. Este processo de intensificação das tecnologias nas nossas vidas está também associado ao facto das invenções tecnologias num tempo cada vez mais curto se tornarem tecnologias acessíveis a todos, tecnologias de massa. Esta mudança constante de tecnologia está a moldar a economia gerando mudanças com grande intensidade.

Os portos não estão imunes a este fenómeno da tecnologia e da economia digital e terão que se preparar para ter como clientes e utilizadores os membros da Geração C (Connected Generation), tecnologicamente avançados e propensos a tomar contacto com os produtos e serviços através da internet. Como é do conhecimento de todos, o e-commerce é uma realidade do momento presente, sendo que até a indústria tradicional se está a conectar com este processo. Esta é considerada a primeira vaga da economia digital. A segunda vaga está agora a começar através da partilha de informação digital entre diferentes aparelhos e equipamentos ajudando os utilizadores a atingir os melhores resultados pretendidos. A terceira vaga está relacionada com a geração de valor através da “identidade digital” dos consumidores, percebendo o trajeto de consumo que deixam na internet poder-se-á melhor ajudar o consumidor a satisfazer as suas necessidades.

Estima-se que em 2020 cerca de 50 mil milhões de aparelhos, em todo o mundo, estejam ligados à internet. Talvez um terço sejam computadores, smartphones, tablets e televisões. Os restantes dois terços serão sensores que analisam, controlam e otimizam processos em todo o mundo. Acredita-se que a Internet das Coisas (ou até a Internet de tudo), incorporando o cloud Computing, data analytics e mobile communications, represente um salto tecnológico semelhante à introdução do computador.



Os portos portugueses posicionaram-se muito bem na era do digital, através da dinamização de projetos de referência internacional como a janela única portuária e a janela única logística. Este bom posicionamento tecnológico deve ser capitalizado e a “digitalização” do setor portuário e logístico deve ser acelerada, na medida em que não basta ter uma estratégia para o digital, no futuro será necessário ter uma estratégia completamente alinhada com a nova era digital. Caso os portos de Portugal consigam continuar a estar na vanguarda deste processo poderão ambicionar estar no grupo restrito de países que liderarão a mudança de paradigma que está neste momento em curso. Percebendo a importância da cooperação e associação dos diversos players do setor portuário na procura de caminhos para o desenvolvimento futuro do setor portuário nacional e tendo a consciência da mudança de paradigma que neste momento o mundo atravessa, as Comunidades Portuárias juntaram energias para, com o apoio da PwC, realizarem um trabalho quadro, que reflete a médio e longo prazo, uma possível evolução futura dos portos. Esse trabalho chama-se: “Portugal – O Porto Europeu do Oceano Atlântico” e concentra os contributos de todas as comunidades portuárias e dos seus membros.

Sabendo que a performance do setor da logística está fortemente relacionada com a fiabilidade das cadeias de abastecimento, que são cada vez mais complexas e vitais para a competitividade do país, e com a previsibilidade dos serviços de expedição para produtores e exportadores, o sucesso futuro dos portos depende de reformas abrangentes e de compromissos de longo prazo por parte de todos os players do setor. Portugal tem de fazer uma abordagem pragmática à sua logística e aos seus portos, executando os projetos que elencou para o desenvolvimento das suas infraestruturas, fazendo o benchmarking contínuo com referências internacionais, adotando, assim, as melhores práticas e medindo e acompanhando a nossa evolução. Este caminho é um caminho de investimento na otimização do hinterland através do desenvolvimento de plataformas logísticas estrategicamente localizadas, criação de ligações ferroviárias eficientes que otimizam a capacidade de carga do equipamento e uma malha ferroviária mais densa, nomeadamente nas ligações aos corredores das redes transeuropeias, otimização do transporte rodoviário internacional e articulação com o transporte aéreo. As evidências apuradas no trabalho “Portugal – O Porto Europeu do Oceano Atlântico” apontam para a possibilidade de, em média, os portos portugueses poderem crescer, anualmente, 3,5%, em termo de movimentação de carga nos portos. A percentagem de crescimento de 3,5% dos portos é semelhante à taxa de crescimento prevista para a economia global, para os próximos anos. Portugal tem uma localização privilegiada nos movimentos portuários de e para o espaço atlântico (Europa + África + Américas) tendo a taxa de penetração dos nossos portos neste espaço crescido de 2,6% em 2009 para 4,3% em 2013. Neste contexto, existem fundamentos para acreditar que, em 2040, os portos de Portugal podem vir a movimentar cerca de 200 milhões de toneladas (2,4 vezes o movimento atual).

 
O crescimento dos portos portugueses registado nos últimos anos é, sem dúvida, um caso de sucesso que deve ser sublinhado no contexto nacional. Muitas entidades contribuíram, ao longo do tempo, para este êxito. Para que o crescimento registado no passado se mantenha no futuro é fundamental continuar o espírito de cooperação entre todos os players e associações envolvidas no processo logístico portuário marítimo. Um excelente exemplo de cooperação entre todos é o surgimento e crescimento das comunidades portuárias, que num rasgo de visão de médio e longo prazo se uniram para produzir um documento que resume os contributos de todos os membros das comunidades portuárias e que construtivamente propõe um caminho para chegar a 200 milhões de toneladas de carga movimentada em porto em 2040. Para além de um caminho e de uma meta de crescimento, o trabalho “Portugal – O Porto Europeu do Oceano Atlântico” propõe que se esteja muito atento à evolução do mundo, por forma a Portugal estar na linha da frente da mudança de paradigma logístico-portuário, nomeadamente no que diz respeito à revolução digital e tecnológica que está em curso. Só a manutenção de um elevado espírito de cooperação entre todos os players que se relacionam com os portos permitirá a criação de pontes de comunicação entre todos, fundamentais para garantir a agilidade do sistema portuário que, num mundo em constante mudança, estará na base do sucesso futuro!

por Miguel Marques, Partner PwC
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