sábado, 21 de Outubro de 2017

 
Passageiros & Mobilidade
11-11-2016

Dá Deus Nozes…
No último número desta revista deu-se conta do novo sistema integrado de mobilidade urbana posto em prática pela CM de Cascais, o “Mobi Cascais”. Caso não esteja a ser traído pela memória, penso que se trata de um sistema verdadeiramente pioneiro no nosso país, onde se põe à disposição de quem precisa de se deslocar todo um conjunto de modos de transporte - desde os mais convencionais aos modos suaves - abrangendo ainda meios públicos de uso partilhado e modernos sistemas de comunicação, sendo o seu custo suportado por um financiamento cruzado através das receitas do estacionamento tarifado. Como se tudo isto não bastasse, o sistema de mobilidade integrada é operado pelo município (que não abdicou do seu papel de liderança do processo), contando para isso com o apoio técnico do Centro de Engenharia e Investigação da Indústria Automóvel (CEIIA).

O “Mobi Cascais” procura deste modo responder de forma criativa e inovadora às necessidades crescentes de mobilidade da população, criando uma alternativa atrativa ao uso do automóvel, sem no entanto prescindir da sua colaboração em parte da cadeia de deslocações urbanas. Em vez de enveredar pelo “politicamente correto” de diabolizar o automóvel (como parece ser a opção do município de Lisboa) a CM de Cascais percebeu o que Jan Gell afirmou numa recente entrevista: a mudança de uma mobilidade assente sobretudo no automóvel para uma outra mais amiga do ambiente que se baseie no transporte coletivo e nos modos suaves, é um processo lento e faseado (em Copenhaga demorou quase meio século a entrar nos hábitos de deslocação da população) e o automóvel tem um papel a cumprir para deslocações onde a oferta de TC é menos eficiente (sobretudo nas periferias urbanas de menor densidade e nos períodos de menor procura) e desde que este se insira num sistema integrado de mobilidade em que, à medida que as pessoas se aproximam dos centros urbanos mais densos e congestionados, bem como das áreas onde os outros modos de deslocação (desde o TC à bicicleta e ao andar a pé) podem e devem constituir verdadeiras alternativas, estas mudem de modo de transporte.

Neste caso de Cascais, o sistema é constituído por uma nova oferta de autocarros (adquiridos pela CM com as receitas do estacionamento tarifado nas áreas centrais do concelho), por parques de estacionamento dissuasores junto às estações de caminho-de-ferro – 1800 lugares - e na periferia do centro da vila, por um sistema público de bicicletas elétricas de uso partilhado (que terão ao seu dispor 70 km de ciclovias em meio urbano) e por um novo sistema tarifário (o “Passe Bicas”) que, por 20€ mensais, dá ao seu utilizador acesso às bicicletas, aos autocarros municipais e a estacionar por tempo ilimitado nos parques dissuasores e em todas as áreas do concelho que não estejam abrangidas pela política de estacionamento rotativo. Tudo isto sem custos adicionais para a CM de Cascais, dado que, com as receitas do estacionamento e dos “Passes Bicas” e as parcerias estabelecidas com entidades privadas (provavelmente da área da publicidade), o sistema é equilibrado financeiramente.

O mais interessante de tudo isto é que um sistema idêntico, aliás com o mesmo parceiro (o CEIIA) foi estudado e definido para Lisboa no anterior mandato autárquico. Tendo em vista facilitar a sua concretização pelo município, alteraram-se os estatutos da EMEL para que esta empresa municipal deixasse de ser apenas um operador de estacionamento para se transformar numa empresa de mobilidade (tal como consta da sua nova designação: Empresa de Mobilidade e Estacionamento de Lisboa), operando não só na área do estacionamento (tarifado e para residentes), como na oferta de um sistema de bicicletas elétricas de uso partilhado (cujo protótipo foi desenvolvido pelo CEIIA e as empresas Orbita – bicicletas – e Tekever – sistema de posicionamento, logística e comunicações) e na instalação de infraestruturas de apoio à mobilidade pedonal, de que os ascensores públicos do Castelo e do Chão do Loureiro são exemplos. Só que, ao contrário do quer ocorre agora em Cascais, o lobby das empresas de publicidade e as usuais invejas e procura de protagonismos individuais, falaram mais alto em Lisboa e, apesar do então presidente da CML ter experimentado um protótipo do sistema na Semana Europeia da Mobilidade de 2013, o mesmo não teve qualquer seguimento posteriormente, apesar do investimento municipal ser inferior aos 4 milhões de Euros, valor estimado para a construção das estações para as bicicletas públicas de uso partilhado. Agora fala-se em 23 milhões de Euros para instalar um sistema parecido …

Como dizia Arturo Perez Reverte numa entrevista ao Expresso publicada recentemente, “o novo é apenas aquilo que já foi esquecido”. Ou, como diz o povo, “dá Deus nozes a quem não tem dentes”.

por Fernando Nunes da Silva
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