quarta-feira, 28 de Junho de 2017

 

 
 
 
 
 
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Carga & Mercadorias
25-06-2014

Alberto Castanho Ribeiro – Diretor Geral da EMEF
Crescer nos mercados internacionais
A EMEF quer apostar em novos mercados e pretende assumir-se como um importante “player” a nível internacional no desenvolvimento de soluções tecnológicas para o setor da manutenção ferroviária. O acordo com a Nomad Digital foi um dos primeiros passos dados pela empresa nessa direção, mas a EMEF não coloca de parte associar-se a novos parceiros privados de modo a capitalizar o conhecimento e experiência dos seus quadros técnicos





Transportes em Revista – Recentemente, a EMEF firmou um acordo com a Nomad Digital, que deu origem à criação da Nomad Tech. Como é que surgiu esta parceria?
Alberto Castanho Ribeiro - O projeto Nomad Tech surge e é desenvolvido na sequência de uma estratégia de internacionalização da EMEF e de respetiva valorização dos seus produtos. A EMEF criou uma Unidade de Inovação e Desenvolvimento, que possui um conjunto de serviços e produtos ao nível da manutenção e operação ferroviária que são tecnologias de ponta no Mundo inteiro. No entanto, a atual estrutura da EMEF - que é uma empresa pública sem capacidade ou agilidade comercial a nível internacional e que tem limitações para as suas deslocações - não iria permitir que os seus produtos e serviços fossem devidamente aproveitados. Portanto, era necessário encontrar um parceiro que já estivesse presente no mercado ferroviário e que tivesse uma rede comercial alargada, de modo a que pudéssemos penetrar nos diferentes mercados a nível mundial. Com a Nomad Digital, conseguimos posicionar os nossos produtos em mercados muito interessantes, como o norueguês, onde, recentemente, ganhámos um concurso para a telemanutenção dos comboios com um produto que já utilizamos na CP, no Alfa Pendular, e que irá ser muito importante para nós. Estamos também a instalar dois protótipos na DB Schenker, um de telemanutenção e outro que é um conversor de potência.

TRQuais são as mais-valias que a Nomad Digital vai trazer a esta nova empresa?
ACR – A Nomad traz conhecimento em termos de tecnologia e comunicações, mas, sobretudo, traz uma rede comercial que atualmente está presente 15 países e em quatro continentes. Esta parceria já nos permitiu entrar nos mercados norueguês, alemão e inglês, e, esperamos, a curto prazo, estar no mercado americano e japonês.

TRQual será a participação da EMEF na empresa?
ACR – A Nomad tem 65 por cento e a EMEF tem 35 por cento. Terá três gerentes, incluindo um representante da EMEF, e a sua sede será em Contumil, no Porto.

TR – Qual será o “core business” da Nomad Tech?

ACR – A empresa irá fornecer soluções e produtos muito específicos, como a Telemanutenção, Manutenção Baseada na Condição (MBC), Eficiência Energética e Conversores de Tração.

TRPara a EMEF é importante que a empresa fique sedeada em Portugal?
ACR – É fundamental, porque permite reter os ativos humanos que são essenciais para o desenvolvimento da nossa empresa e do País. O facto de uma empresa inglesa vir sedear a sua atividade em Portugal possibilita que estes ativos se mantenham no País e deixem de ir para fora, algo que está a acontecer em muitas empresas nacionais. Aliás, este é um risco que as empresas públicas têm vindo a correr nos últimos tempos, porque têm perdido quadros técnicos especializados devido às condições salariais. A estratégia para inverter essa situação passa por começar a trabalhar no mercado concorrencial e estar em igualdade de circunstâncias com os parceiros privados, dando as mesmas condições de incentivos e de motivação aos colaboradores. Mas há que ter também a mesma agilidade e flexibilidade para ir a concursos e mercados internacionais. No entanto, não podemos estar obrigados a certas regras que nos são impostas pelas leis públicas e que não nos deixam ser competitivos. Como não existe um regime de exceção e estas leis têm uma perspetiva generalista, acabam por limitar a nossa atividade.

TR – Este tipo de parcerias, com empresas privadas, poderá ser alargado a outras áreas de negócio da empresa? É este o caminho que deve ser seguido pela EMEF para conseguir alcançar o objetivo da internacionalização?

ACR – Neste momento estamos a realizar um trabalho de reestruturação e reflexão sobre qual é o modelo mais adequado para a EMEF no futuro. Até agora, estas parcerias com empresas privadas têm dado alguns resultados positivos. A Nomad foi agora criada, mas já tem mercado e contratos firmados; temos também um consórcio com a Siemens para a manutenção das locomotivas elétricas e que também tem dado resultados positivos; depois há o consórcio para a manutenção do Metro do Porto, que nos tem dado bons indicadores… pelo que as experiências têm sido positivas.
Estes parceiros trazem-nos uma maior agilidade e conseguem integrar-nos numa rede alargada de contactos, empresas e mercados, algo que nunca teríamos se ficássemos fechados enquanto empresa pública a trabalhar exclusivamente para a CP. Assim, a nossa estratégia de internacionalização passa pela penetração direta da EMEF em outros mercados ou através de parcerias com empresas que já têm uma capacidade instalada e uma rede comercial com dimensão. Queremos aproveitar as competências que temos e a capacidade instalada para fazer crescer o negócio da EMEF. Não o conseguimos fazer aqui em Portugal, portanto temos de procurar em outros mercados e negócios.

TR – Para além do setor ferroviário?
ACR – Estamos a alargar o nosso âmbito de influência, porque a EMEF tem capacidade para entrar em outras áreas que não a ferrovia. Por exemplo, a solução de telemanutenção pode ser utilizada quer num comboio, quer num autocarro. Podemos criar sensores e perceber como é que a manutenção do autocarro deve ser feita online. Por outro lado, temos larga experiência e conhecimento em áreas como a manutenção, reparação de motores ou componentes, na melhoria e upgrade das composições ferroviárias, entre outras. Por exemplo, neste momento estamos a negociar um contrato para a reparação de motores diesel marítimos. Estamos ainda a fazer as reparações das caixas de transmissão dos comboios dos caminhos de ferro suíços e também concorremos a um concurso lançado pelo Metro de Estrasburgo para a reparação de componentes.

TR – A criação da Unidade de Inovação e Desenvolvimento foi fundamental para que a EMEF apostasse numa estratégia de internacionalização? Podemos esperar ainda mais projetos?
ACR
– Sem dúvida. Parte da equipa que integra esta unidade irá migrar para a nova empresa, mas a EMEF irá continuar a manter uma estrutura na área da inovação, que depois fará a interligação com as outras atividades. A ferrovia traz muito valor acrescentado em termos tecnológicos, em áreas como a eletrónica, software, centros de sensores, equipamento de interiores, diesel, eletromecânica, eficiência energética…é um conjunto de áreas onde empresas portuguesas e as universidades têm colaborado. A este respeito, devo dizer que o projeto da Nomad Tech tem tido o importante suporte da Faculdade de Engenharia do Porto, algo que queremos continuar.
TR - Sente que esta é a oportunidade para a EMEF apostar em outras áreas?
ACR – Não é uma oportunidade, é uma necessidade. Temos de aproveitar o ‘know how’, potencial e dedicação de todo um conjunto de pessoas que trabalham aqui diariamente, muitos com dificuldades devido às condições que atualmente temos, de modo a garantir a continuidade da EMEF. A prova é que, recentemente, uma equipa nossa foi fazer um trabalho nos caminhos de ferro suíços e depois foi contratada por eles. Mas esse é um risco que corremos por estarmos no mercado concorrencial. A alternativa é criar condições para manter esses técnicos e criar mais-valias para a empresa, para o setor e para o País.

TR – A EMEF pretende apostar em novas parcerias com empresas privadas, à semelhança do que foi feito com a Nomad Digital?

ACR – Estamos a estudar essa hipótese. Neste momento estamos a estudar um concurso internacional, de cerca de cem milhões de euros, que envolve a deslocação de uma equipa nossa durante três anos na área da reparação de equipamento ferroviário…não posso é dizer onde [risos].
Há um enorme respeito profissional pelos nossos técnicos. No projeto da Noruega, há um ambiente muito bom e eles consideram bastante o nosso trabalho. Na Alemanha, com a DB, a mesma coisa. Eles ficaram espantados com o nosso conhecimento técnico e com a nossa capacidade para responder às suas questões. Muitas vezes, o problema é a imagem que o País tem a nível internacional. Felizmente, estamos a conseguir ultrapassar isso e o convite que a DB nos fez para apresentarmos os nossos produtos é um exemplo.

TR – Como é que a empresa vai resolver o problema de falta de quadros e técnicos especializados?
ACR – A manter-se a atual política de não admissão de quadros e técnicos podemos vir a ter esse problema. Estamos a estudar a abertura de um plano de estágios de forma a fazer o rejuvenescimento e a transmissão desse conhecimento a novos colaboradores. Aliás, esta equipa de Inovação e Desenvolvimento tem pessoas relativamente novas que deram um grande contributo para o desenvolvimento dos nossos produtos.

TR – Referiu que uma das áreas onde a EMEF quer apostar, fora da ferrovia, é no aproveitamento dos conhecimentos adquiridos na área dos componentes “diesel”. O que estão a pensar fazer?
ACR
– Havia o objetivo de encerrar a nossa unidade de “diesel”, localizada no Barreiro. Esta administração entendeu que não deveria fechar essa unidade, mas sim reorganizar a sua atividade. É isso que estamos a fazer, focando essas equipas na reparação e manutenção de componentes “diesel”. Por outro lado, estamos a fazer contactos a nível nacional e internacional para conseguirmos mercado nesta área. Já temos encomendas e também perspetivas de negócio, de empresas que nos visitaram e ficaram bastante interessadas, mas ainda não há uma decisão. Há a hipótese de fazermos uma parceria internacional, fora da Europa, que está neste momento a ser analisada...mas também não posso adiantar mais nada [risos]. Penso que as coisas estão a encaminhar-se para termos resultados a curto prazo, mas ainda não estamos confortáveis sobre a evolução desta unidade.

TR – Há cerca de cinco anos, a EMEF firmou um contrato com o Governo bósnio para o fornecimento de vagões de mercadorias. A unidade de fabrico de material circulante é também uma daquelas que a EMEF quer potenciar?
ACR – Essa é uma área que estamos a reanalisar. Entendemos que não temos a competitividade necessária quando comparamos os nossos fatores de produção com outros. Ela existe, temos capacidade instalada, mas depende muito da nossa competitividade e das oportunidades de negócio que entretanto surgirem. Recentemente tivemos uma encomenda para a Mota-Engil, de 25 vagões de transporte de balastro, que depois irão para o Malawi e Moçambique. É um contrato importante, no valor de cerca de um milhão de euros. Mas, temos de analisar bem como é que podemos potenciar este negócio e em que mercados.

TR – A EMEF também tinha formalizado uma parceria com os Caminhos de Ferro de Moçambique, que previa a instalação de uma unidade de produção de vagões naquele país africano. Como está esse processo?
ACR – Esse processo estava a ser desenhado, mas por proposta desta administração e após uma análise detalhada, entendemos que a nossa entrada nesse mercado deveria ser feita, numa primeira fase, através da manutenção de material circulante. A joint-venture com os CFM mantém-se e estamos a negociar com eles a criação de uma empresa nessa área. No entanto, as condições atuais em Moçambique atrasaram um pouco o processo, portanto está tudo muito dependente da estabilidade política e económica no país e da expansão do negócio do carvão. Se as companhias que exploram o negócio do carvão diminuírem a sua atividade ou se retirarem do país, como já se fala, podemos ter algumas dificuldades. Se houver uma maior estabilidade, é um mercado com um enorme potencial.

TR – O mercado angolano também é interessante para a EMEF?
ACR – Acabámos de firmar um acordo com os Caminhos de Ferro de Luanda (CFL). O presidente dos CFL entendeu que a EMEF tinha todas as condições e competências para dar suporte no processo de desenvolvimento organizacional que ele pretende levar a cabo na empresa. Assinámos um memorando de entendimento com os CFL para uma futura cooperação nas áreas da logística, suporte de consultoria de gestão da manutenção, estágios técnicos em Portugal, reparação de rotáveis, entre outros. Agora vamos ter uma equipa a trabalhar em conjunto para analisar quais são as áreas onde podemos ajudar. Entretanto, estamos também a preparar reuniões com os Caminhos de Ferro de Benguela e com os Caminhos de Ferro de Moçâmedes.



TR – O Governo já anunciou que irá avançar com a concessão a privados de várias operações ferroviárias. Esta é a uma oportunidade para a EMEF rever alguns contratos e acordos que existem com a CP?
ACR – Quando entram novos “players” neste tipo de processos existem sempre oportunidades para se melhorar. Mas a EMEF tem sido sempre séria e transparente na formação do preço e está no mercado para ser uma empresa equilibrada e, se possível, dar lucro. Penso que seremos sempre um prestador de serviços importante no mercado concorrencial, mesmo que os “players” privados que entrem entendam que a manutenção pode ser feita pelo fabricante do material circulante. Mas estas empresas também olham para a sua rentabilidade e depois podem ver os preços que são praticados quer pela EMEF, quer pela sua concorrência. E julgo que temos todas as condições para sermos competitivos.

TR – Está prevista alguma reestruturação ao nível dos quadros da EMEF?
ACR – Está a decorrer um processo de reorganização. A EMEF tem competências mas tem de melhorar a sua capacidade de resposta e organização, para nos prepararmos para os desafios da internacionalização. Estou convicto de que, se o conseguirmos fazer, essa reestruturação deverá ser feita através de saídas normais, como as reformas. Mas, qualquer alteração será sempre feita com o acordo da estrutura trabalhadora da empresa. Devo dizer que temos tido um relacionamento muito positivo quer com a Comissão de Trabalhadores, quer com os Sindicatos, pois entendem quais são os nossos objetivos e os caminhos a seguir. Eles sabem que esta direção está aqui para defender os interesses da empresa, para a desenvolver e assegurar os postos de trabalho. E isso está evidente nos resultados que temos vindo a alcançar.


Pedro Costa Pereira
in TR129 - novembro / dezembro 2013
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Comentários
25-04-2017 20:56:38 por Manuel Domingues
Rescindi com a EMEF em 2006: Deixei uma frase: Sinto vergonha em deixar aos meus filhos, um local de trabalho pior daquele que herdei. Tudo o que atraz li, traz aqlguma esperança. A ver vamos.
22-07-2014 2:18:23 por LUIS SALVADOR
A FERROVIA DESDE QUE SEJA RAPIDA, VAI RETIRAR MUITOS CAMIOES DE SERVIÇO DE TRANSPORTES QUE SÃO POLUENTES, MAS A FERROVIA QUE LEVA OS CAMIOES. TERÁ QUE SER DE BITOLA EUROPEIA O MAIS BREVE POSSIVEL E COM LINHAS RETAS PASSANDO POR TUNEIS OU PONTES E A UMA VELOCIDADE DE 250KM.,ATRAVESSANDO PORTUGAL NAS ZONAS CENTRAIS A NORTE E A SUL LIGANGO COM A ESPANHA E A FRANÇA, ASSIM COMO AS PORTOS NACIONAIS.
  
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