quarta-feira, 28 de Junho de 2017

 
Carga & Mercadorias
30-01-2012

Ricas greves de um País pobre
Escrevo esta coluna ainda no rescaldo de uma greve (geral?) que, no Setor dos Transportes, como habitualmente, consegue sempre o paradoxo de prejudicar mais os menos favorecidos, que atingir os objetivos a que oficialmente se propõe.

Embora as palavras de ordem tenham sempre como pano de fundo a luta por melhores condições de vida, contra o desemprego, contra o ataque aos postos de trabalho e agora também em defesa dos mais desfavorecidos, é por demais sabido que o que se pretende, muito mais do que exercer um direito legítimo, é impedir que os outros exerçam o seu direito ao trabalho, dificultando-lhes de todas as formas possíveis o acesso ao mesmo. Não deixa de ser revoltante que, aqueles que se dizem em luta pelos direitos dos mais desfavorecidos, ganhando em média, valores no mínimo três ou quatro vezes superiores ao daqueles, os impeçam de chegar aos seus postos de trabalho, escamoteando-lhes os meios de transportes tão necessários e vitais a quem, pela escassez de rendimento disponível, tem de ir viver cada vez para mais longe dos centros urbanos. A tão propalada solidariedade que enche a boca de tantos, mas que nos momentos de aperto parece só ser usada em causa própria.

E que dizer do Setor Marítimo-Portuário onde os ordenados devem ser em média superiores a quatro salários mínimos? Seguramente que seria expectável que os trabalhadores deste Setor tivessem a consciência que os seus postos de trabalho e a qualidade de vida, face à grande maioria dos portugueses, que (ainda) usufruem, é um bem que importa preservar e que a melhor forma de o fazer é justamente trabalhando. Pois não. Na generalidade, e com poucas exceções, fizeram exatamente o contrário, aderindo à greve, sem se importar sequer com o prejuízo causado ao País. Sendo uma contabilidade sempre difícil de fazer pode referir-se que só nos três navios de cruzeiro que não puderam escalar o Funchal (dois) e Lisboa (um), o País deve ter perdido cerca de um milhão de euros. O suficiente para alimentar umas 300 famílias carenciadas durante um ano!

Não falo dos navios de carga pela dificuldade e subjetividade em quantificar os prejuízos que a greve causou, mas seguramente que eles se refletirão na competitividade das nossas exportações e também no custo do produtos que todos consumimos.

Enfim, passado que foi este dia em que todos lutámos, uns para ir trabalhar e outros para nos impedir de ir, e em jeito de balanço, importava refletir o que cada um ganhou ou perdeu com esta greve. Da minha parte não tenho quaisquer dúvidas que perdemos todos, e quando assim é o Pais fica seguramente mais pobre. Justamente no momento em que todos os tostões contam e são importantes!

Há sensivelmente um ano escrevi nesta revista uma Crónica que tinha como titulo “Foi bonita a festa, Pá”, e dizia que o tempo já não estava para festas. Que tinha chegado o momento de assumirmos coletivamente a necessidade de meter mãos à obra e começar a construir um novo Portugal.

Hoje acrescentaria: Um Portugal que agora, todos sabem, é bem mais pobre do que imaginavam. Um Portugal que, nas últimas décadas, escolheu o caminho da riqueza fácil em terra (dinheiros comunitários) em detrimento do da agrura dos mares. Um Portugal em que cada um de nós vai ter que se suplantar constantemente e ser mais solidário com os menos favorecidos. Um Portugal que vai ter que lutar e trabalhar muito, mas mesmo muito, para não se afundar e conseguir sobreviver. Um Portugal do qual os nossos filhos se orgulhem.
por: António Belmar da Costa
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